Visão

Olá! Tudo bem?

Sem desculpas dessa vez. Estou de férias e não postei nada. Uma pseudo-desculpa poderia ser que quase não saí de casa e não teria assunto para colocar aqui. Mas não seria algo suficiente.

Estou com meu sono completamente desregulado. Estou com insônia eu acho. Não estou conseguindo dormir antes das 4h00. Não vem o sono e se vou para cama, fico rolando de um lado para outro. Mas tenho me esforçado para manter as horas necessárias de sono então acordo tarde no outro dia. O dia é curto quando não se levanta cedo. O trabalho não rende, há baixa produtividade e quando vejo já são 4h00, 6h00 e até mesmo 8h00 e estou indo dormir.

Acordei com o olho ardendo hoje. Com tanto e-mail rolando por aí, já pense na gripe aviária e que por sinal quem quiser ver algo sobre o assunto mas de caráter meio que de “Teoria da Conspiração” de uma olhada nesse vídeo.


Mas então, percebi que era porque eu havia dormido apenas 3h00, então depois de muita briga com o colchão voltei ao sono.

No final da tarde descubro que tenho que ir para a faculdade para fazer a confirmação da minha matrícula do inglês. Então vou eu tomar banho às pressas para sair e dar tempo de voltar para Campo City para gravar umas músicas da banda Versículos de Fé. Foi no ônibus que veio a idéia para o post de hoje (geralmente as idéias surgem sempre lá).

Como é incrível o que podemos fazer com e sem a nossa visão não!? Eu tenho um costume de brincar de “fazer perfil” das pessoas do ônibus. Olho elas, o jeito como gesticulam, como se vestem, como olham para as outras pessoas, como reagem, como falam, tudo que possa me ajudar a “montar essa pessoa”. Não é um rótulo, mas algo que faço e me divirto em ver como ela pode ser. Brincadeira de curitibano mesmo. Se fosse baiano, por exemplo, eu já teria feito amizade com a pessoa e na mesma semana estaria indo tomar café na casa dela.

Teve uma época que eu ia para Curitiba sempre com o mesmo ônibus, no mesmo horário e por conseqüencia eu encontrava, na maioria das vezes, as mesmas pessoas no ônibus. Prato cheio para o “Jogo do Perfil”. Tinha um grupo de mulheres que pegavam o ônibus, um ponto depois do meu e com o tempo descobri que elas trabalhavam como diaristas. Pelo que eu consegui inferir elas fazia, mais de uma casa por dia e era raro repetirem casa na semana ou mantinha sempre as mesmas casas todos os dias. Creio que eram umas 6 mulheres e quando eu ia referir delas ao meu cérebro, as chamava de faxineiras. Nada de pejorativo, algo que eu pudesse eternizar um monte de cenas, definições, conversas, personalidades. Lembro com mais perfeição de duas delas, na verdade três. Uma era a mais gordinha de todas. Ela usava saia, geralmente azulada, uma camisa com algum desenho estilo “renda”. Tinha os cabelos cacheados, mas não era um cacheado mimado, era o cacheado natural que as vezes recebia uma trança de adorno. Lembro de ver ela com tiara no cabelo também. Era a mais quieta do grupo. Tinha um sorriso tímido e gestos contidos. O braço era dotado com um excesso de pelos. Tinha aliança de casada e parecia levar uma vida normal. Trabalho-Casa. Creio que o marido deveria trabalhar em alguma firma, talvez até na linha de produção. Filhos, deveria ter 2 ou 3 que estudavam na mesma escola e eram acordados pela mãe para pegar o ônibus escolar. Via por vezes ela voltar cansada de um dia de trabalho, mas nunca a vi irritada. Uma pessoa calma e satisfeita.

A outra mulher que lembro era uma menina. Chamo de menina, pois era a mais nova da turma e a mais falante. Nem muito magra, nem muito gorda. No peso. No desenho do corpo, nada que sobressaltasse aos olhos. Usava calças justas, geralmente acompanhadas de blusinhas básicas(aprendi essa definição com a minha irmã, para qualquer tipo de blusinha que não tenha alguma característica que mereça classificação). Nunca vi ela usa outra calça que não fosse jeans e na maioria das vezes a do estilo “maria-joão”. Ou seria corsário? Enfim, aquelas que parece que falta um pedaço. Demonstrava um pouco de vaidade, cuidado. Usava aparelho. Creio que era para corrigir aquele tipo de arcada em que não há espaço para o canino. Ela tinha jeito de quem tinha problemas no canino. Usava batom, coisa que raramente as outras faziam. Parecia estar trabalhando de diarista por influencia do meio. Alguém devia ter indicado ela e ela, como estava precisando do dinheiro, foi trabalhar. Todas eram registradas em carteira de trabalho e isso lhes dava a comodidade de férias e outros bônus. Essa menina não devia morar com os pais, ou se morava eles eram separados e ela só via um deles. Ela deveria morar com a avó. Ela tinha os olhos de quem é cuidado pela avó. Não era nada vulgar. Sempre na dela e parecia não estar preocupada em encontrar alguém.

Tinha também as “Irmãs ursinho”, mas em uma outra oportunidade falo delas pois já escrevi demais e ainda não cheguei no assunto principal.

Hoje novamente ao antro do jogo de perfil, como bom curitibano(mesmo que metropolitano) sentei em um banco individual e estava seguro de que iria a viagem inteira escutando música, mas o meu mp4 estava sem carga e só deu para eu escutar a interpretação de Zeca Pagodinho da música Coqueiro Verde (“Em frente ao coqueiro verde, esperei uma eternindade, já fumei um cigarro e meio e Aninha não veio. Como diz Leila Diniz: “Homem tem que ser durão”, se ela não chegar agora não precisa chegar. Eu vou me embora, vou ler meu Pasquim, se ela chega e não me vê, vem correndo atrá de mim[eu to la no botequim – Zeca Pagodinho]”).

Depois da música fiquei pensando no que fazer nesses 43 minutos de viagem que restavam. Decidi: “Vou brincar de perfil”. Olhei para a minha frente e nao tinha quase ninguém, mas eu estava intrigado com uma criança que não parava de gritar no fundo do ônibus. Decidi não olhar para trás e praticar a brincadeira só com o que eu ouvia. Quando eu descesse, se ela ainda estivesse no ônibus, veria se muitas das deduções tinham dado certo. É aí que está a diversão, na comprovação dos resultados ou na “frustração”.

Ela deveria ter uns 7 a 9 anos de idade. Tinha uma voz rouca. Uma rouquidão que parecia ser de calo nas cordas vocais. Talvez fosse porque ela falava muito alto. Alto mesmo. Ela estava acompanhada da mãe, pai, irmã e tio. Eram essas as pessoas que eu tinha certeza. A irmã, pelo seu jeito de falar, era mais nova em cerca de 1 a 2 anos no máximo. Deduzi ser uma família de baixa renda, pelo vocabulário da criança, pela falta de postura dos pais diante ao escarcéu que ela fazia e por outros fatores que irei comentando e vocês irão de concordar, ou não. Lembro mais uma vez que não há nada de rotulação ou preconceito nisso, apenas constatações, pois tento manter sempre a mente aberta para não moldar a nada e julgar errado. O menino era mimado, mas não todo o tempo, mas sim em sua minoria. Os pais deveriam trabalhar o dia inteiro fora e o contato com os filhos era pequeno e tosco. Ele gostava da atenção voltada para ele. Mesmo enquanto os pais falavam ele gritava: “Olha o carro de corrida(JIPE)” até que esse soltassem alguma esclamação como: “é mesmo”. A irmã era sua fiel escudeira. Talvez pela idade e pela lógica, via o irmão obter sucesso em seus métodos , então mimetizava. Descobriram o ouro: bala na bolsa da mãe. Esta puxou a bolsa para si. Devia ser uma bolsa media com alguns adornos em metal. Do tamanho e forma necessária para caber as quinquilharias de um passeio para Curitiba e ainda “sair bonita na foto”. “Mãe! Me dá uma bala”, disse o menino, com início de voz de choro, ou melhor, manha. “Mãe! Me dá uma bala”, irmazinha seguidora, com o mesmo estilo de manha. “Mãe! Me dá uma bala”, coralzinho manhoso. Momento de silêncio. Assunto diferente, sem manha. “Joguei no chão porque o tio mandou”, menino se explicando seguido de barulho de janela abrindo e fechando. Devem ter jogado os “papéis de bala”(esse nome deve ser porque antigamente as balas eram embrulhadas em papéis, hoje não mais) pela janela. Acho isso engraçado, para nao dizer de certa forma revoltante. Eles deviam estar perto do ultimo banco, tem lixo por lá.

Na hora de descer confirmei muitas das coisas e outras vi que não cheguei perto, como por exemplo nas descrições físicas que resolvi nao escrever aqui para não ficar maior do que já está.

Veja quanta coisa a gente pode imaginar, mesmo sem ver. Vendo eu poderia pular um monte de etapas e acabar com o processo. Sair com nada a mais nem a menos. Não desenvolvi nada, não pratiquei nada. Podia sim brincar de perfil, olhando e fazendo novas inferências, mas a experiencia não seria a mesma, não estimularia as mesmas coisas.

Por isso que acho fantástica a frase: “a necessidade, faz o oficial”. Meu pai me disse isso e é uma verdade. Cegos se adaptam ao “nosso” mundo. Pessoas de baixa renda, habitantes da África, habitantes dos pólos, índios. Todos se adaptam, fazem o seu “oficial”, a sua sobrevivencia.

Imagine você sem sua visão por um tempo. Hermeto Pascoal disse em uma entrevista que queria que Deus lhe tirasse a visão por um tempo. Só para ele sentir e viver de forma diferente, estimular-se de forma diferente. Acho isso formidável, pois o que é a nossa vida se não as experiências que temos? Não digo para sair provando de tudo, mas saber degustar a vida.

Sugestão para esse aumento das férias por causa da gripe suína. Estimule seus sentidos. Como o título do post sugere, estimule através da visão. Veja coisas diferentes ou apenas não veja.

Post meio excessivo não. Se você chegou até aqui comente algo no post. Assim eu sei quantos conseguiram ler e nãos e cansaram. Meus posts nao são sempre assim. Aproveite e de uma lida nos outros e me dê um feedback ok!?

Estava sentindo falta já. Amanhã acordo cedo, pois tenho reunião no Creação. Estou lascado.

PS.: Eu não releio o que escrevo.Desculpe os erros que houverem.

Uma boa noite, madrugada, dia, para você e nos vemos em breve.

Forte abraço.

4 Comments

  1. Helô
    August 02, 2009

    Sabe que eu tbm brinco disso sempre!?hehehe…Beijooos

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  2. Renato
    August 03, 2009

    Eu também sempre faço isso sem nem perceber!
    Hahaha
    mas acho q agora, percebendo, terá um sentido totalmente novo, e assim já praticarei essa nova “visão”. Muito bacana o post john!

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  3. Bruno
    August 14, 2009

    Hehehehehehe … Muito bom …

    Lendo o que tu escreveu e imaginando vc pirando no onibus hehehe …

    Agora é só entrar num ônibus e não ter o que ler que eu já vou pirar com isso hehe … ctza…

    Abraçao cara …

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  4. vtc
    September 09, 2009

    “O dia é curto quando não se levanta cedo. O trabalho não rende, há baixa produtividade e quando vejo já são 4h00, 6h00 e até mesmo 8h00 e estou indo dormir.”

    Nada a ver meu. O rms que pra mim foi o maior hacker da história dormia as 7:00 e acordava as 17:00.

    Você nunca vai ser um hacker se não passar pelo menos 12h continuas de programação – frag night?

    Quianto aos perfis. Eu faço isso todo dia. Na federal eu fico o dia inteiro andando sem rumo, observando as pessoas. A diferença entre nós é que eu sou sociopata. Se bem que depois daquelas fotos quue você colocou na lista…

    lol

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